sexta-feira, 5 de abril de 2013

Você Tem Um Futuro ?

Olá gente, o post hoje não é de minha autoria, é uma reprodução de um ensaio da revista "Filosofia" da editora escala n° 16 para quem quiser comprar. Achei o texto um tanto quanto bom para fazer uma reflexão e se inspirar, como sempre...


Espero que gostem.

Ter ou não futuro à luz de Hegel

Por Andréa Trompczynski.

Dia desses, numa conversa típica de abobrinhas, um amigo muito caro me perguntou: “Você tem futuro?” Meu silêncio foi longo. Precisei do auxílio material da minha cadeira predileta na cozinha por algumas horas. A questão, que, quando feita por ele, era nada profunda, para mim ressoou como um bumbo. Tenho um futuro? Pensei no Laertes, o meu irmão perfeito, sempre difamando o pobre do Hamlet, que sou eu. Laertes definitivamente tem um futuro. Laertes aparece cada vez com um novo carro, que apenas vislumbro da janela, já que, por coisas da vida, não nos falamos há tempos.
Laertes terá filhos brilhantes, engenheiros da Nasa, sofá caríssimo, provavelmente um convite para sócio perpétuo do Rotary Club. Sua moral é inatacável, a perfeição na Terra. Entristeci por alguns minutos, pensando que nem eu teria esse futuro e nem mesmo o desejava. Não me dava tesão. Então, ele chegou. O velho Hegel chegou e me redimiu, mais do que isso, me alçou a pedestais nunca imaginados por Laertes. Ele disse: “Andréa, não apenas tens um futuro como tu és o futuro!”, abri a janela e gritei: “Sou um destino!” Para Hegel, o futuro é o progresso, o devir. O devir é o ser em movimento, as rodas da engrenagem do pensamento indo e indo, barulhentas, aquele zumzum das conexões em nossa cabeça. Hegel, então, delicadamente me propôs a pergunta: “O que precisamos para progredir?” Mais informações, mais detalhes, mais determinações. Tudo o que desejo, muito mais detalhes, muito mais conhecimento, a tal da ambição mental. Veja o ser em si: apenas é. Humano ou coisa, tem um nome, uma determinação.
Seria, para mim, o espécime mais primitivo. O ser-aí: tornou-se uma forma de ser particular, ele progrediu, teve um vislumbre de futuro. O ser em si bestava lá, em meio ao rebanho, apenas mais uma ovelha na massa toda, sem distinção alguma. O ser-aí não nega o rebanho, mas distingue-se dele, se dá um nome, se diferencia. Progride. Chama-se de um outro. Veja, para me chamar de outro algo, outro tipo de ser ou algo assim, é necessário que eu tenha passado primeiro pela estupidez inerte de ser apenas um ser em si. Apenas existir: levantar, comer, transar, comprar, dormir. Ser membro do Rotary Club. Um ser imbecilizado, que já fui. Minhas idéias na fase do ser-aí eram apenas outras idéias, diferenciadas das dos que estavam à minha esquerda e dos que estavam à minha direita, como se todos fossem azuis, e eu, azul-anil, para usar uma imagem explicativa. Mas, veja, que lixo essa parte do progresso, do “ter um futuro”: precisamos e dependemos dos contornos e limitações que o outro determina, para que, neles nos baseando, possamos nos distinguir. Dizia, eu, então, nessa época: não sou como eles porque não penso, não vejo, não falo como eles. Creio que é a época de rebeldia de todos nós, o ser-aí de Hegel seria a nossa adolescência emocional – que independe da idade cronológica. Havia a nossa própria delimitação, uma sucedendo a outra, nos limitando de novo e de novo ad nauseum. Ainda podíamos ser todas as tonalidades de azul, mas só se poderia ser azul, nada mais. Uma ovelha, ainda, mesmo que já um pouco questionadora. Sempre insatisfeita, claro, aqui, sentindo a tristeza, a dor, a inquietude de consciência típicos de quem se distinguiu. Eu lembro bem dessa época, e Hegel fala que nessa fase se passa pela imposição do dever-ser (sollen), a exigência de escapar às limitações, de ir além dessa determinação em particular, de não se sentir contente em ser azul-anil. Eu pensava? Não, eu distorcia uma idéia já antiga. Pegava a idéia de outro e a torcia. Isso não era raciocínio, era a minha consciência totalmente limitada à consciência dos outros. Então, progredi. Hegel chama a próxima fase de ser para si.
Depois do distanciamento, há uma segunda negação, “é o momento mais íntimo, mais objetivo, da vida do espírito, pelo que a gente se torna um sujeito, uma pessoa, e uma pessoa livre”. Aqui, é o momento em que conseguimos a maior dádiva do mundo: a reflexão. Eu então nego todas aquelas limitações impostas pelo que eu via nos outros, como meu parâmetro para poder me distinguir. Mas há alguns nomes dos quais não posso me emancipar, como minha própria natureza humana, minha condição de mulher etc.
Qual é a chave então para que se progrida a até o ser para si? Tcharam ram ram ram! As leis, arrá! Descobrir as leis que governam o entendimento, a sensibilidade, a ação. Então, estou nem ligando, nesse estágio, se a sociedade impõe que deseja que eu seja rica, peituda e feliz como um comercial de margarina. Estou totalmente já desligada do dever-ser, já não me importa mais, as rédeas do status social se arrebentam totalmente. Inclusive, aqui estamos naquela tênue linha entre lucidez e loucura, percebo que já se romperam também as rédeas da razão e principalmente da razão socialmente aceita – que é medíocre e burra. O salto é livre, jamais imposto, somente proposto. Nesse estágio, já não se baseia mais no outro. Nesse estágio, tudo é apenas – inclusive, e principalmente, o conhecimento e os livros – sugestão. Aqui, nós temos o raciocínio verdadeiro, o pensar puro. Puro! Mas, essencialmente é se descobrir o modus operandi de uma certa dinâmica da vida e inventar outra. Assim, bem doido: não gostei, vou criar outra. Mas, ainda assim, aqui nesse ponto é preciso reconhecer que se depende de certas coisas, afinal, somos as tais ovelhas e precisamos sobreviver, precisamos de água, comida e calor para isso. Infelizmente, no entanto, não é uma escada de progresso estanque, linear.
 Podem-se intercalar as fases. Posso ter dias mais primitivos, ou momentos ou segundos. Como o tempo também não é linear. Não se sabe exatamente ainda a forma gráfica de representação do tempo, apenas se tem certeza de algo: não é linear. Terei um futuro? – pergunto novamente. Posso, sim, ter um futuro agora e posso voltar a ser uma cebola irracional em poucos segundos e não terei futuro – intelectual, subentendido, já que o outro não me desperta interesse nenhum – algum. Não é linear, não é progressão pura e simples.
Os estágios convivem todos dentro do ser e, ao mesmo tempo em que somos a ponta da evolução, somos a cebola. A droga de estar na fase para-si é a negação total. Não sou mais o oposto dos meus pares, não tenho mais referências. Nos sentimos sem nome, sem rótulo, sem casa, sem ninho nenhum, sem um lugar no qual sentir igual aos outros. E precisamos, na vida, sentir identificação, ter “espelhos”, pelo menos é o que dizem os especialistas – e membros do Rotary Club. Então, há um futuro a nos esperar, depois de tudo. Não linear ou com degraus para escalar, mas, ainda assim, a possibilidade de um tempo, ainda assim um futuro. A superação. Uma ordem de realidade mais completa. Caramba, eu quero isso. Ambiciono isso. Aqui, eu acredito que, enfim, compreendemos. O quê? Gostaria muito de saber. Sim, tenho um futuro e ele coexiste com meu presente. Ele está aqui, lá e acolá e a qualquer momento vou senti-lo. Hegel, querido, sua visita foi um prazer.

Um comentário:

  1. Abri a janela e gritei: “Sou um destino!” – Sim, todos nós somos um destino. No último parágrafo do texto lembrei-me da necessidade humana de sentir afinidade com outras pessoas para que exista sua interação no grupo social em questão, já que todo ser precisa viver em sociedade. Sempre achei que não fosse possível delimitar o futuro, somos seres incertos, incoerentes, sem um fim em si. Como Nitzsche disse: “Nós inventamos a idéia do fim; na realidade não existe o fim... Somos necessários, somos um fragmento do destino, formamos parte do todo, estamos no todo; não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar nossa existência.” Até porque nós, também, inventamos os conceitos medir, comparar e condenar. Ficamos sempre há espera de que as etapas da nossa vida se concretizem com uma certa linearidade, a qual nós mesmos propomos, mas no fundo sabemos que tudo não passa de planos. As coisas podem mudar radicalmente amanhã. Por isso: Torne sua vida extraordinária! Mais um belo post.

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